Economia 30/07/2019 às 18:10 Fonte: Diário de Cuiabá Escrito por: JULIANA BUBLITZ
FGTS

Liberação do FGTS ajuda, mas não reverte crise do país

Para especialistas, medida em análise no Ministério da Economia, que também inclui novos saques em contas inativas, não ameaça fundo, mas preocupa setor de construção civil

Alvo de estudos no Ministério da Economia, a liberação de saques - até em contas ativas - do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) é avaliada com cautela por economistas e especialistas em gestão e finanças públicas. Para quatro professores e um consultor ouvidos por ZH, em tese, não há riscos à sustentabilidade do FGTS (leia mais ao lado), mas a medida é considerada insuficiente para reverter a crise econômica e é vista com preocupação pelo setor da construção civil, que depende desses recursos para financiar obras. 

Em 2017, na tentativa de superar a recessão, o então presidente Michel Temer permitiu saques em contas inativas (de contratos de trabalho extintos) até dezembro de 2015. À época, a ação injetou R$ 44 bilhões na economia. Cerca de 26 milhões de pessoas sacaram os recursos, e o ano terminou com crescimento de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas o contexto era outro. 

“É difícil prever qual seria o impacto hoje, porque a situação é diferente. Vivemos um cenário econômico pior. Ainda assim, não é uma opção ruim, porque pode abrir caminho a outras medidas anticíclicas”, avalia o economista Ely José de Mattos, da PUC. 

Embora os detalhes da operação em gestação não tenham sido divulgados, a expectativa é de que os resgates do FGTS cheguem a R$ 22 bilhões nessa nova rodada, envolvendo contas inativas de 2016, 2017 e 2018. Quanto às contas de pessoas que estão trabalhando, há uma série de dúvidas. Não se sabe, por exemplo, quais seriam os limites e quem poderia sacar. 

No último dia 30, após a divulgação da queda de 0,2% do PIB no primeiro trimestre, o ministro da Economia, Paulo Guedes, limitou-se a afirmar que diversas equipes estudam o assunto. O novo estímulo deve ganhar forma, segundo ele, somente após a aprovação da reforma da Previdência, para que os efeitos não sejam semelhantes a "voo de galinha". 

Ainda assim, o consultor econômico Raul Velloso, especializado em análise macroeconômica e finanças públicas, afirma que não há garantias de êxito. Ex-secretário de Assuntos Econômicos do Ministério do Planejamento (governo José Sarney), ele ressalta que a repercussão "dependerá da decisão de cada trabalhador". 

“Algum efeito sobre o consumo deve ter, mas essa é uma medida típica de governos que não conseguem atingir resultados e precisam dar alguma resposta à opinião pública”, destaca Velloso. 

SEM PROSPERIDADE - As incertezas sobre o cenário econômico, na avaliação de Fábio Pesavento, coordenador do Núcleo de Economia Empresarial da ESPM, podem frustrar as expectativas de Guedes. 

“Não adianta o governo liberar dinheiro, se o país vive uma crise de confiança. Por medo de perder o emprego, muita gente pode decidir guardar o que tem a receber. Nesse caso, o impacto pode ser limitado”, sintetiza Pesavento. 

Para Álvaro Guedes, professor de Administração Pública da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a ação dificilmente levará o país sair do fundo do poço: “É ação de curto prazo, restritiva, com efeito localizado. Não vai resolver de jeito nenhum o ciclo recessivo que estamos vivendo”. 

Professor da Faculdade de Economia da UFRGS, Fernando Ferrari Filho concorda. “Em 2017, o consumo puxou o PIB para cima, ainda que timidamente. Agora, pode dar algum resultado, mas não a ponto de levar a um novo ciclo de prosperidade. O problema é que o governo está jogando todas fichas na reforma da Previdência, que não anda. Precisa fazer alguma coisa. O que surpreende é estar repetindo os passos de Temer, que tanto criticava”, diz Ferrari.